Cinco tipos de empresas.
Se não souberes qual estás a comprar,
vais culpar a empresa errada.

Um membro novo da comunidade perguntou-me o que significam as etiquetas de crescimento, defensiva, cíclica e recuperação. A resposta completa ficou grande demais para o chat... por isso decidi escrevê-la aqui.

A pergunta chegou ao chat há dias, de alguém que entrou há pouco tempo na 4OU7: "na lista das beldades há empresas com o símbolo de recuperação a vermelho, outras são defensivas, outras de crescimento. O que significa isso?"

Gosto muito desta pergunta porque parece de principiante, mas não é...

Já vi investidores com anos de experiência a perder dinheiro exatamente por não terem parado para responder a esta questão. Compraram uma empresa de um tipo, com expectativas de outro tipo... e depois ficaram irritados com a empresa por se comportar exatamente como era suposto.

O rótulo não diz se a empresa é boa

Vamos tirar já do caminho o maior mal-entendido.

A etiqueta não é uma nota de qualidade. Não existe o tipo bom e o tipo mau. Há empresas defensivas medíocres e há empresas especulativas geridas por gente brilhante.

A etiqueta responde a outra coisa, muito mais útil: o que é que faz o valor daquela empresa mexer, quanto tempo isso costuma demorar a refletir-se no preço das ações e que tipo de estômago te vai exigir pelo caminho.

Por outras palavras, o tipo de empresa não define o retorno, define o guião. Quando conheces o guião, deixas de te assustar com cenas que estavam no argumento desde o princípio, certo?

"O rótulo não me diz se a empresa é boa. Diz-me que tipo de paciência é que ela vai exigir de mim."

Pedro Silva-Santos

A ideia de dividir empresas por tipos não é minha. Quem a popularizou foi o Peter Lynch, o gestor que transformou um fundo obscuro no fundo mais famoso da sua geração e que dizia uma coisa simples: antes de comprares uma ação, tens de saber que história é que estás a comprar.

Na plataforma 4OU7 usamos cinco etiquetas. Vamos a elas, uma a uma.

1. Crescimento

Crescimento

Empresas que estão a aumentar vendas e lucros a um ritmo muito acima da economia. Normalmente reinvestem quase tudo o que ganham no próprio negócio, por isso pagam poucos (ou nenhuns) dividendos.

Move o preço: as expectativas sobre o futuro, não os resultados de hoje. Basta o crescimento abrandar de 30% para 22% e o preço das ações cai, ainda que a empresa continue a crescer.
Exige de ti: estômago para quedas de 30% a 50% sem que nada de essencial tenha mudado no negócio.
Erro típico: pagar qualquer preço porque a história é bonita. Uma empresa excelente comprada a um preço absurdo poderá revelar-se um péssimo investimento.

Exemplos que quase toda a gente reconhece nesta gaveta: a Alphabet (a dona do Google), a Amazon, a Netflix, a ASML.

2. Defensiva

Defensiva

Empresas que vendem coisas de que as pessoas precisam aconteça o que acontecer: comida, bebida, produtos de higiene, medicamentos, eletricidade. Em recessão as pessoas deixam de trocar de carro, não deixam de comprar pasta de dentes (para bem de todos nós).

Move o preço: pouca coisa e é esse o objetivo. Resultados previsíveis, crescimento lento, quedas menos violentas quando o mercado entra em pânico.
Exige de ti: paciência para aceitar um retorno modesto enquanto vês outros a ganhar muito mais nos anos de euforia.
Erro típico: pensar que "defensiva" significa "não pode cair". Significa apenas que costuma cair menos e por outros motivos.

A Coca-Cola, a Procter & Gamble, a Nestlé, a Johnson & Johnson. Negócios aborrecidos, aqueles que nunca são tema de conversa ao jantar... e que costumam ser os últimos a desaparecer da carteira de quem já passou por várias crises.

3. Cíclica

Cíclica

Empresas cujos resultados sobem e descem ao ritmo da economia: bancos, construção, automóveis, aviação, químicas, matérias-primas, consultoria, semicondutores, luxo.

Move o preço: o ciclo. Juros, procura industrial, confiança dos consumidores, encomendas das empresas.
Exige de ti: comprar quando as notícias são más e os resultados estão feios. Quando tudo está a correr lindamente, normalmente já é tarde porque está tudo caro.
Erro típico: este é o erro mais traiçoeiro de todos e merece parágrafo próprio... e a vermelho!
A armadilha das cíclicas

Numa empresa cíclica, os rácios de avaliação parecem baratíssimos no topo do ciclo (lucros no máximo, preço ainda a subir) e caríssimos no fundo do ciclo (lucros esmagados, por vezes negativos). Quem compra ações de empresas cíclicas só a olhar para o rácio preço/lucros costuma comprar precisamente no pior momento possível.

A Accenture é um bom exemplo deste género. Empresa sólida, grande, com clientes em todo o mundo... e ainda assim depende de as outras empresas terem orçamento para contratar consultoria. Quando a economia aperta, esse orçamento é dos primeiros a ser cortado.

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4. Em recuperação

Em recuperação

Empresas boas que tropeçaram. Perderam quota de mercado, falharam uma transição tecnológica, fizeram uma aquisição desastrosa, mudaram de gestão, ficaram com dívida a mais. O negócio continua a existir, a confiança do mercado é que desapareceu.

Move o preço: provas. Cada trimestre que mostra que o problema está mesmo a ser resolvido vale mais do que dez apresentações de estratégia.
Exige de ti: uma tese escrita, um prazo e a humildade de admitir que podes estar errado.
Erro típico: confundir queda com desconto. Nem todas as empresas que caíram 50% estão em saldo, algumas estão simplesmente a valer menos.

É aqui que entra a expressão inglesa value trap, a armadilha de valor. A empresa parece barata em relação ao que já foi, continua a parecer barata durante três anos e a razão é sempre a mesma: o negócio encolheu, o preço apenas acompanhou.

O símbolo a vermelho na plataforma 4OU7 não é um aviso de perigo nem um convite à compra. É um lembrete de que aquela empresa exige mais trabalho de análise do que as outras, porque a tese depende de uma mudança que ainda não aconteceu.

5. Especulativa

Especulativa

Empresas cujo valor assenta quase todo numa promessa: um medicamento que ainda está em ensaios, uma tecnologia que ainda não tem clientes, uma mina que ainda não produz, um negócio que ainda não dá lucro nem gera dinheiro.

Move o preço: a narrativa. Notícias, entusiasmo, dinheiro fácil no mercado. Sobe 200% num ano e retira isso tudo (ou mais) no ano seguinte.
Exige de ti: posição pequena e a aceitação honesta de que podes perder a totalidade do que lá investires.
Erro típico: dar-lhe peso a sério na carteira porque uma vez até correu bem. Chamo-lhes "galdérias" e o nome não é por acaso... é que podem mesmo fugir com o teu dinheiro!
A regra que uso para mim

Se uma posição especulativa desaparecer por completo do meu portefólio de investimentos e isso não mudar nada de importante na minha vida, o tamanho está certo. Se me tirar o sono, o tamanho dessa posição está errado desde o primeiro dia.

Nenhuma empresa cabe numa gaveta só

Chegámos à parte que costuma surpreender quem está a começar e que é a razão pela qual este artigo merecia ser escrito de forma tão detalhada.

As etiquetas não são compartimentos estanques. A maioria das empresas interessantes vive em duas gavetas ao mesmo tempo... e ignorar a segunda é como ler metade do contrato e assinar logo de seguida.

EmpresaGaveta principalA segunda gaveta que quase ninguém lê
AlphabetCrescimentoModeradamente cíclica: a maior parte da receita vem de publicidade e a publicidade é das primeiras coisas que as empresas cortam numa recessão.
ASML, NVIDIACrescimentoFortemente cíclicas: o setor dos semicondutores tem ciclos de excesso e de escassez que já duram décadas.
LVMHMarca defensiva, com poder de fixar preçosConsumo cíclico: ninguém precisa de uma mala de 3 000€ quando está preocupado com o emprego.
Costco, McDonald'sDefensivasCrescimento lento, mas constante, ano após ano, década após década.
NikeMarca defensivaEm recuperação desde que começou a perder terreno para marcas mais pequenas e mais rápidas.
AccentureCíclicaQualidade defensiva no balanço: dívida controlada, muitos clientes, contratos longos.

Uma empresa de crescimento moderadamente cíclica cai por dois motivos diferentes: porque o crescimento abrandou ou porque a economia arrefeceu. São coisas distintas e pedem reações distintas.

Se o crescimento abrandou por o negócio estar a perder terreno, isso é um problema da empresa. Se abrandou porque o mundo inteiro está a gastar menos, isso é uma fase... e as fases passam.

A mesma empresa muda de gaveta com o tempo

Outra coisa que raramente se diz: a etiqueta não é vitalícia.

1
Coca-Cola foi uma ação de crescimento durante décadas. Hoje é o exemplo de manual de uma defensiva.
2
Microsoft foi de crescimento nos anos 90, passou mais de uma década adormecida com os preços das ações a lateralizar e voltou a ser crescimento com a mudança de gestão e a aposta na cloud.
3
Meta Platforms era crescimento, foi tratada pelo mercado como um caso de recuperação em 2022 (caiu quase 80%) e voltou ao grupo das beldades em crescimento pouco depois.
4
Nike foi uma empresa de crescimento durante anos, passou a ser vista como uma defensiva de marca, das que se compram e se guardam... e nos últimos anos tornou-se um caso de recuperação, depois de perder terreno para marcas mais pequenas e de trocar de liderança para endireitar o rumo.

Isto tem uma consequência prática que quase ninguém tira: rever a etiqueta faz parte de acompanhar a empresa. Se continuas a tratar uma empresa como sendo de crescimento três anos depois de ter deixado de crescer, não é a empresa que te está a enganar.

O que cada tipo de empresa te exige

TipoO que faz o preço mexerMargem de segurança que exijoHorizonte
CrescimentoExpectativas futurasAlta, porque o preço já traz otimismo embutidoAnos
DefensivaResultados estáveis e taxas de juroModeradaDécadas
CíclicaO ciclo económicoAlta e comprada com o ciclo em baixoO ciclo, não o calendário
Em recuperaçãoProvas trimestrais de melhoriaMuito altaCom prazo definido por ti
EspeculativaNarrativa e liquidezNão se aplica... aqui o mais importante é o tamanho da posição na tua carteira globalIndefinido

O erro que vejo com frequência

Quinze empresas diferentes, o investidor convencido de que está bem diversificado... e as quinze são tecnológicas especulativas, todas dependentes do mesmo tipo de otimismo, todas a reagir às mesmas notícias, todas a subir ou a cair no mesmo dia.

Isso não é uma carteira diversificada, é a mesma aposta repetida quinze vezes.

O teste de trinta segundos

Pega na lista de empresas nas quais investes e escreve o tipo à frente de cada uma. Se mais de metade cair na mesma gaveta, já sabes qual vai ser o próximo ano difícil da tua carteira de investimentos... e, mais importante, já sabes onde é que falta fazeres algum trabalho de casa.

Não estou a dizer que precisas de ter empresas dos cinco tipos. Por exemplo, ninguém precisa de especulativas para nada... há por aí tantas empresas com provas dadas!

Como diz o meu mentor (Adam Khoo): porque é que vou comprar um bilhete da lotaria se posso casar com quem já ganhou a lotaria?

O que quero que percebas é que a verdadeira diversificação não se mede pelo número de empresas que tens em carteira, mede-se pelo número de motivos diferentes que fazem as ações das tuas empresas subir e descer.

"Ter quinze empresas que caem todas pelo mesmo motivo não é diversificar, é fazer a mesma aposta quinze vezes."

Pedro Silva-Santos

Como uso isto no dia-a-dia

Cada cartão de empresa na plataforma 4OU7 tem a etiqueta do tipo bem visível, ao lado do preço de cada ação, do valor intrínseco estimado e dos potenciais níveis de suportes dados pelas médias móveis.

Todos os meses, uso isso para três coisas:

✓
Calibrar expectativas. Antes de me irritar com uma queda, olho para a etiqueta e pergunto se aquilo é anormal ou se é apenas o guião a cumprir-se.
✓
Escolher a margem de segurança. Não exijo o mesmo desconto a uma empresa defensiva e a uma empresa em recuperação.
✓
Ver a composição da carteira. Filtro os meus investimentos por tipo de empresa e percebo, num segundo, se estou a repetir a mesma aposta sem dar por isso.

Nenhuma destas três coisas exige matemática avançada. Exige parar cinco minutos antes de comprar e responder a uma pergunta simples: que tipo de história é que eu estou a comprar aqui?

Repete comigo

A empresa não me desiludiu. Eu é que estava à espera de outro filme.

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As empresas mencionadas neste artigo servem apenas para ilustrar cada tipo e não constituem qualquer lista de compras nem recomendação de investimento. As classificações refletem a forma como olho hoje para estes negócios e podem mudar com o tempo, tal como explico no próprio artigo. Detenho ações de algumas das empresas mencionadas. Não sou consultor financeiro, este texto é a partilha da minha experiência pessoal e cada investidor deve fazer a sua própria análise antes de decidir fazer qualquer tipo de investimento.

Não sejas egoísta... partilha!

Invista com mais clareza