Cinco tipos de empresas.
Se não souberes qual estás a comprar,
vais culpar a empresa errada.
Um membro novo da comunidade perguntou-me o que significam as etiquetas de crescimento, defensiva, cíclica e recuperação. A resposta completa ficou grande demais para o chat... por isso decidi escrevê-la aqui.
A pergunta chegou ao chat há dias, de alguém que entrou há pouco tempo na 4OU7: "na lista das beldades há empresas com o símbolo de recuperação a vermelho, outras são defensivas, outras de crescimento. O que significa isso?"
Gosto muito desta pergunta porque parece de principiante, mas não é...
Já vi investidores com anos de experiência a perder dinheiro exatamente por não terem parado para responder a esta questão. Compraram uma empresa de um tipo, com expectativas de outro tipo... e depois ficaram irritados com a empresa por se comportar exatamente como era suposto.
O rótulo não diz se a empresa é boa
Vamos tirar já do caminho o maior mal-entendido.
A etiqueta não é uma nota de qualidade. Não existe o tipo bom e o tipo mau. Há empresas defensivas medíocres e há empresas especulativas geridas por gente brilhante.
A etiqueta responde a outra coisa, muito mais útil: o que é que faz o valor daquela empresa mexer, quanto tempo isso costuma demorar a refletir-se no preço das ações e que tipo de estômago te vai exigir pelo caminho.
Por outras palavras, o tipo de empresa não define o retorno, define o guião. Quando conheces o guião, deixas de te assustar com cenas que estavam no argumento desde o princípio, certo?
"O rótulo não me diz se a empresa é boa. Diz-me que tipo de paciência é que ela vai exigir de mim."
Pedro Silva-SantosA ideia de dividir empresas por tipos não é minha. Quem a popularizou foi o Peter Lynch, o gestor que transformou um fundo obscuro no fundo mais famoso da sua geração e que dizia uma coisa simples: antes de comprares uma ação, tens de saber que história é que estás a comprar.
Na plataforma 4OU7 usamos cinco etiquetas. Vamos a elas, uma a uma.
1. Crescimento
Empresas que estão a aumentar vendas e lucros a um ritmo muito acima da economia. Normalmente reinvestem quase tudo o que ganham no próprio negócio, por isso pagam poucos (ou nenhuns) dividendos.
Exemplos que quase toda a gente reconhece nesta gaveta: a Alphabet (a dona do Google), a Amazon, a Netflix, a ASML.
2. Defensiva
Empresas que vendem coisas de que as pessoas precisam aconteça o que acontecer: comida, bebida, produtos de higiene, medicamentos, eletricidade. Em recessão as pessoas deixam de trocar de carro, não deixam de comprar pasta de dentes (para bem de todos nós).
A Coca-Cola, a Procter & Gamble, a Nestlé, a Johnson & Johnson. Negócios aborrecidos, aqueles que nunca são tema de conversa ao jantar... e que costumam ser os últimos a desaparecer da carteira de quem já passou por várias crises.
3. Cíclica
Empresas cujos resultados sobem e descem ao ritmo da economia: bancos, construção, automóveis, aviação, químicas, matérias-primas, consultoria, semicondutores, luxo.
Numa empresa cíclica, os rácios de avaliação parecem baratíssimos no topo do ciclo (lucros no máximo, preço ainda a subir) e caríssimos no fundo do ciclo (lucros esmagados, por vezes negativos). Quem compra ações de empresas cíclicas só a olhar para o rácio preço/lucros costuma comprar precisamente no pior momento possível.
A Accenture é um bom exemplo deste género. Empresa sólida, grande, com clientes em todo o mundo... e ainda assim depende de as outras empresas terem orçamento para contratar consultoria. Quando a economia aperta, esse orçamento é dos primeiros a ser cortado.
4. Em recuperação
Empresas boas que tropeçaram. Perderam quota de mercado, falharam uma transição tecnológica, fizeram uma aquisição desastrosa, mudaram de gestão, ficaram com dívida a mais. O negócio continua a existir, a confiança do mercado é que desapareceu.
É aqui que entra a expressão inglesa value trap, a armadilha de valor. A empresa parece barata em relação ao que já foi, continua a parecer barata durante três anos e a razão é sempre a mesma: o negócio encolheu, o preço apenas acompanhou.
O símbolo a vermelho na plataforma 4OU7 não é um aviso de perigo nem um convite à compra. É um lembrete de que aquela empresa exige mais trabalho de análise do que as outras, porque a tese depende de uma mudança que ainda não aconteceu.
5. Especulativa
Empresas cujo valor assenta quase todo numa promessa: um medicamento que ainda está em ensaios, uma tecnologia que ainda não tem clientes, uma mina que ainda não produz, um negócio que ainda não dá lucro nem gera dinheiro.
Se uma posição especulativa desaparecer por completo do meu portefólio de investimentos e isso não mudar nada de importante na minha vida, o tamanho está certo. Se me tirar o sono, o tamanho dessa posição está errado desde o primeiro dia.
Nenhuma empresa cabe numa gaveta só
Chegámos à parte que costuma surpreender quem está a começar e que é a razão pela qual este artigo merecia ser escrito de forma tão detalhada.
As etiquetas não são compartimentos estanques. A maioria das empresas interessantes vive em duas gavetas ao mesmo tempo... e ignorar a segunda é como ler metade do contrato e assinar logo de seguida.
| Empresa | Gaveta principal | A segunda gaveta que quase ninguém lê |
|---|---|---|
| Alphabet | Crescimento | Moderadamente cíclica: a maior parte da receita vem de publicidade e a publicidade é das primeiras coisas que as empresas cortam numa recessão. |
| ASML, NVIDIA | Crescimento | Fortemente cíclicas: o setor dos semicondutores tem ciclos de excesso e de escassez que já duram décadas. |
| LVMH | Marca defensiva, com poder de fixar preços | Consumo cíclico: ninguém precisa de uma mala de 3 000€ quando está preocupado com o emprego. |
| Costco, McDonald's | Defensivas | Crescimento lento, mas constante, ano após ano, década após década. |
| Nike | Marca defensiva | Em recuperação desde que começou a perder terreno para marcas mais pequenas e mais rápidas. |
| Accenture | Cíclica | Qualidade defensiva no balanço: dívida controlada, muitos clientes, contratos longos. |
Uma empresa de crescimento moderadamente cíclica cai por dois motivos diferentes: porque o crescimento abrandou ou porque a economia arrefeceu. São coisas distintas e pedem reações distintas.
Se o crescimento abrandou por o negócio estar a perder terreno, isso é um problema da empresa. Se abrandou porque o mundo inteiro está a gastar menos, isso é uma fase... e as fases passam.
A mesma empresa muda de gaveta com o tempo
Outra coisa que raramente se diz: a etiqueta não é vitalícia.
Isto tem uma consequência prática que quase ninguém tira: rever a etiqueta faz parte de acompanhar a empresa. Se continuas a tratar uma empresa como sendo de crescimento três anos depois de ter deixado de crescer, não é a empresa que te está a enganar.
O que cada tipo de empresa te exige
| Tipo | O que faz o preço mexer | Margem de segurança que exijo | Horizonte |
|---|---|---|---|
| Crescimento | Expectativas futuras | Alta, porque o preço já traz otimismo embutido | Anos |
| Defensiva | Resultados estáveis e taxas de juro | Moderada | Décadas |
| Cíclica | O ciclo económico | Alta e comprada com o ciclo em baixo | O ciclo, não o calendário |
| Em recuperação | Provas trimestrais de melhoria | Muito alta | Com prazo definido por ti |
| Especulativa | Narrativa e liquidez | Não se aplica... aqui o mais importante é o tamanho da posição na tua carteira global | Indefinido |
O erro que vejo com frequência
Quinze empresas diferentes, o investidor convencido de que está bem diversificado... e as quinze são tecnológicas especulativas, todas dependentes do mesmo tipo de otimismo, todas a reagir às mesmas notícias, todas a subir ou a cair no mesmo dia.
Isso não é uma carteira diversificada, é a mesma aposta repetida quinze vezes.
Pega na lista de empresas nas quais investes e escreve o tipo à frente de cada uma. Se mais de metade cair na mesma gaveta, já sabes qual vai ser o próximo ano difícil da tua carteira de investimentos... e, mais importante, já sabes onde é que falta fazeres algum trabalho de casa.
Não estou a dizer que precisas de ter empresas dos cinco tipos. Por exemplo, ninguém precisa de especulativas para nada... há por aí tantas empresas com provas dadas!
Como diz o meu mentor (Adam Khoo): porque é que vou comprar um bilhete da lotaria se posso casar com quem já ganhou a lotaria?
O que quero que percebas é que a verdadeira diversificação não se mede pelo número de empresas que tens em carteira, mede-se pelo número de motivos diferentes que fazem as ações das tuas empresas subir e descer.
"Ter quinze empresas que caem todas pelo mesmo motivo não é diversificar, é fazer a mesma aposta quinze vezes."
Pedro Silva-SantosComo uso isto no dia-a-dia
Cada cartão de empresa na plataforma 4OU7 tem a etiqueta do tipo bem visível, ao lado do preço de cada ação, do valor intrínseco estimado e dos potenciais níveis de suportes dados pelas médias móveis.
Todos os meses, uso isso para três coisas:
Nenhuma destas três coisas exige matemática avançada. Exige parar cinco minutos antes de comprar e responder a uma pergunta simples: que tipo de história é que eu estou a comprar aqui?
A empresa não me desiludiu. Eu é que estava à espera de outro filme.
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As empresas mencionadas neste artigo servem apenas para ilustrar cada tipo e não constituem qualquer lista de compras nem recomendação de investimento. As classificações refletem a forma como olho hoje para estes negócios e podem mudar com o tempo, tal como explico no próprio artigo. Detenho ações de algumas das empresas mencionadas. Não sou consultor financeiro, este texto é a partilha da minha experiência pessoal e cada investidor deve fazer a sua própria análise antes de decidir fazer qualquer tipo de investimento.



