Tenho 329% de lucro
nesta empresa.
Não vendo. Porquê.

Toda a gente me pergunta quando vou vender. A resposta surpreende sempre: não vendo quando estou a ganhar. Vendo por três razões específicas, e nenhuma delas é o lucro acumulado.

Em agosto de 2024, tinha uma posição numa empresa com mais de 329% de rentabilidade acumulada. Parte dos subscritores perguntava se não era altura de vender, de realizar o lucro, de "não ser ganancioso".

Não vendi.

Não porque tivesse uma bola de cristal, mas porque tenho uma regra: o lucro acumulado não é razão para vender, e compreender porquê é, provavelmente, uma das distinções mais importantes entre investidores que constroem riqueza a longo prazo e investidores que ficam sempre aquém do que podiam ter ganho.

329%

Rentabilidade acumulada numa empresa em carteira, e não vendida.
Não porque esteja à espera de "mais". Porque os fundamentos continuam intactos e os preços ainda estão abaixo do valor intrínseco estimado. Lucro não realizado não é argumento de venda.

O erro que chamo de "cortar as flores e regar as ervas daninhas"

Há uma frase usada pelos grandes investidores que descreve perfeitamente o que a maioria das pessoas faz de errado ao vender: "cortar as flores e regar as ervas daninhas".

Traduzindo: vender os investimentos que estão a correr bem (as flores) e manter ou pior, reforçar, os que estão a correr mal (as ervas daninhas), na esperança de que recuperem.

É exatamente o contrário do que faz sentido. As flores crescem porque o jardim está a funcionar, não deves arrancá-las. As ervas daninhas devem ser avaliadas com frieza: se os fundamentos falharam, essa é a razão para sair, não o preço.

"Não interessa vender quando estou a ganhar 100% se essa empresa ainda estiver 30% a 40% abaixo do valor intrínseco estimado."

Pedro Silva-Santos

As três únicas razões pelas quais vendo

1
Os fundamentos deterioraram-se

A razão que me levou a investir deixou de ser válida. Crescimento a desacelerar de forma estrutural, MOAT a ser erodido por concorrência, gestão a tomar decisões que contrariam a tese original. Quando os fundamentos mudam, saio, independentemente de estar a ganhar 5% ou 300%.

2
A posição cresceu para mais de 15-20% do portefólio E os preços estão muito acima do valor intrínseco

Se organicamente, por subida do preço, uma empresa passou a representar 15% a 20% do portefólio, E os preços estão mais de 30% acima do valor intrínseco estimado, equaciono reduzir a exposição. As duas condições têm de ser simultâneas. Uma isolada não chega.

3
É uma empresa cíclica que atingiu o topo do ciclo

Bancos, seguradoras e outros ativos cíclicos têm um comportamento previsível: sobem até ao topo do ciclo e depois corrigem. Para essas empresas, tenho os topos identificados e vendo quando os atingem, não para guardar o dinheiro no banco, mas para reinvestir em beldades que estejam em saldo.

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O que definitivamente não é razão para vender

Não vendo por estas razões
  • Tenho 30%, 100% ou 329% de lucro acumulado
  • O mercado geral caiu e os meus preços desceram
  • As notícias estão negativas sobre o setor
  • Um analista disse que a empresa está cara
  • Preciso de "realizar" o lucro para "bloquear os ganhos"
  • Tenho medo de que o preço vá cair a seguir

Cada uma destas razões tem uma raiz emocional, não racional, e como aprendi da pior forma nos primeiros anos quando as emoções comandam, o portefólio sofre.

O custo de vender cedo demais

Imagina que tinhas comprado ações de uma empresa excelente a 100€. Os preços sobem para 200€. Vendes, "realizas o lucro". A empresa continua a crescer. Cinco anos depois, os preços estão em 700€.

Vendeste quando estavas a ganhar 100%. Perdeste os outros 500% que viriam a seguir porque saíste cedo demais de algo que estava a funcionar.

Os maiores retornos de portefólio não vêm de comprar e vender bem. Vêm de comprar bem e aguentar, às vezes durante décadas, enquanto as melhores empresas do mundo continuam a crescer.

A distinção que tudo muda

A pergunta certa não é "quanto estou a ganhar?" É "a empresa ainda justifica estar em carteira?" Se sim, e os preços ainda têm espaço para subir face ao valor intrínseco, vender seria apenas uma forma cara de pagar impostos sobre mais-valias e perder os ganhos futuros.

Repete comigo

As compras e vendas de ações devem ser mais racionais e menos emocionais. Não vendo porque estou a ganhar. Vendo quando a razão que me fez investir deixou de ser válida.

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