Fiz parte da manada durante uns anos.
Sair dela valeu-me
quase 200 mil euros.
Hoje abri a corretora e fiquei uns segundos parado a olhar para um número. Não te escrevo isto para me gabar... escrevo porque sei exatamente como é estar do lado oposto.
Há números que não dizem nada e há números que contam uma história inteira. Este conta a minha história.
A valorização do meu portefólio, tal como aparece hoje (22 de setembro de 2026) na minha corretora.
Quase 200 mil euros de valorização. Sei que um número destes pode soar a exibicionismo, por isso deixa-me ser honesto contigo desde já: não é o valor que mexe comigo, é a pessoa que tive de deixar de ser para o alcançar.
Essa pessoa comprava caro quando toda a gente estava eufórica e vendia barato quando toda a gente estava em pânico. Fazia exatamente o que a manada fazia... e perdia dinheiro exatamente como os restantes elementos dessa manada.
Este artigo é uma celebração, sim, admito. Só que não celebro o número, celebro o dia em que saltei fora da manada.
2018 e 2019: a manada... e eu!
Comecei a investir em empresas cotadas na bolsa como começa quase toda a gente: atraído pelo ruído espalhafatoso nas redes sociais. Via uma ação a subir 90% numa semana, ouvia alguém no YouTube dizer que aquela era "a próxima grande cena" e comprava ações imediatamente, sem saber o que a empresa vendia, quanto lucrava ou se estava afogada em dívidas.
Hoje chamo-lhes "galdérias": empresas especulativas, sem fundamentos, que vivem de promessas e de publicações em fóruns e que um dia fogem com o nosso dinheiro. Na altura chamava-lhes oportunidades... era mesmo ingénuo!
Fazia trading... comprava e vendia ações, abria a aplicação da corretora dezenas de vezes por dia, deitava-me a pensar em gráficos e acordava a pensar em gráficos. Houve uma semana em que as galdérias já me tinham levado quase 50% do dinheiro que lá tinha... a sensação física desse rombo financeiro não se esquece.
Quando finalmente fiz as contas, as perdas somavam 22 612,91 euros.
O pior nem foi o dinheiro que derreti. O pior foi a ansiedade, a irritação, a euforia seguida de desânimo... e a vergonha de perceber que afinal eu não era uma pessoa tão racional como julgava.
Comprava depois de o preço já ter subido muito, porque só nessa altura é que a subida se tornava visível para mim.
Vendia depois de o preço já ter caído a pique, porque nessa altura a dor começava a tornar-se insuportável.
Repetia o ciclo, convencido de que da próxima vez ia ser diferente. Contudo, só mudavam as "galdérias", o resultado continuava a ser deprimente.
Junho de 2020: parei de fugir
Em junho de 2020 fiz uma coisa que andava a adiar há meses: assumi as perdas. Olhei para os 22 612,91 euros sem desculpas, sem culpar o mercado, os algoritmos ou o azar... o problema era eu e o meu método, ou melhor, a ausência de um método.
Foi nessa altura que comecei a aprender com o Adam Khoo, que ainda hoje considero o meu mentor. Não me ensinou nenhum truque secreto, ensinou-me algo muito mais valioso e muito mais aborrecido: olhar para uma ação como uma fatia de um negócio real e não como um bilhete de lotaria.
Aprendi a procurar beldades, excelentes empresas que lideram o seu mercado, com crescimento consistente, com vantagens competitivas que as protegem da concorrência e com dívida muito conservadora. Mais tarde, aprendi a estimar quanto valem as ações das empresas e disciplinei-me a comprar apenas quando o preço das ações está abaixo desse valor estimado. Aprendi, sobretudo, a separar o preço das ações do valor do negócio que está por trás.
Em sete meses (de junho de 2020 a janeiro de 2021) tinha recuperado aquilo que perdera e 2021 tornou-se o ano da reconstrução, com a minha confiança a voltar aos poucos... e sem euforia!
A manada tem sempre o mesmo relógio
Com o tempo percebi que a manada não é feita de pessoas estúpidas. É feita de pessoas normais, com emoções normais... fui uma delas e não me envergonho de o admitir.
O relógio da manada funciona sempre da mesma maneira:
Repara que a manada faz precisamente o contrário do que qualquer pessoa sensata faz numa loja. Ninguém entra numa loja em época de saldos e sai a correr porque os preços baixaram 40%... na bolsa, é isso que a maioria faz.
"A manada não perde dinheiro por falta de informação. Perde porque compra (em euforia) no topo e vende (em pânico) no fundo."
Pedro Silva-SantosTrês vezes em que a manada fugiu
Desde 2020, o mercado já me pôs à prova (a sério) mais três vezes. Em todas elas, o ruído dizia uma coisa e os fundamentos diziam outra.
2022, o ano do medo. Inflação descontrolada, juros a subir, guerra na Europa. O Nasdaq 100 caiu 33% e o S&P 500 caiu 18%. À minha volta, dizia-se que a bolsa era um casino e que o melhor era sair antes que as quedas fossem muito piores. Fiz exatamente o contrário: comprei muitas ações de excelentes empresas que já conhecia, que já tinha analisado e que de repente estavam com descontos que talvez nunca mais volte a ver. A minha carteira fechou o ano a perder 9,41%... e foi esse ano "feio" que construiu grande parte do número que hoje vejo no ecrã.
Abril de 2025, a loucura das tarifas. O Trump anunciou tarifas contra meio mundo e os mercados afundaram em poucos dias, com o S&P 500 a chegar perto dos 20% abaixo do máximo. Vi vídeos de pessoas que até achava relativamente bem informadas a jurar que era o fim da globalização, o início de uma recessão profunda, o princípio do fim das empresas americanas... voltei às minhas listas, confirmei que o negócio das beldades não tinha mudado de um dia para o outro e comprei muito mais ações dessas beldades, enquanto a manada fugia uma vez mais.
Início de 2026, o pânico do software. Desta vez a história era outra: a inteligência artificial ia destruir as empresas de software. As ações caíram em bloco (as boas e as más) como se fossem todas iguais. Escrevi sobre isso na altura, no artigo "o fim das empresas de software SaaS?". Na prática, fiz o que o método me pede: separei as empresas cujo negócio estava mesmo ameaçado daquelas que estavam apenas a ser arrastadas pelo medo generalizado. Nestas últimas, reforcei a minha posição comprando mais ações a preço de saldo.
Não acertei em tudo, é verdade! Nunca acerto em tudo e quem te disser que acerta sempre ou é louco ou está a tentar burlar-te. A questão é que não precisei de acertar em tudo, precisei apenas de não fugir quando os preços estavam no intervalo certo para eu comprar.
A manada viu uma ameaça ao preço.
Eu procurei uma ameaça ao negócio. Quando não a encontrei, comprei mais.
O que mudou não foi a inteligência
Gostava de te dizer que hoje sou mais inteligente do que em 2018. Não sou. Sei mais coisas, é verdade, mas a informação que me fez ganhar dinheiro a partir de 2022 estava disponível para toda a gente... de graça!
O que mudou foi o momento em que tomo as decisões. Quando pertencia à manada, decidia durante a tempestade, com o coração aos saltos. Hoje decido antes, com o mercado calmo: que empresas quero ter na minha carteira de investimentos, quanto vale cada uma, a que preço estou disposto a reforçar e que dinheiro guardo de lado, as minhas balas, para disparar quando os saldos voltarem.
Quando a queda chega, já não estou na fase de decidir... estou a executar aquilo que o meu eu do passado, mais calmo e mais lúcido, deixou escrito.
Continuo a sentir algum medo, é verdade! Sinto um ligeiro aperto no peito quando vejo o portefólio a cair a pique durante várias semanas. A diferença é que hoje sei que o medo é apenas informação sobre o meu estado emocional e não sobre a qualidade das empresas que tenho em carteira.
Se neste momento estás onde eu já estive
Talvez tenhas comprado alguma coisa no topo porque era sobre isso que toda a gente falava. Talvez tenhas vendido em abril de 2025, com o estômago às voltas, e visto os preços recuperarem loucamente nos meses seguintes, como se o autocarro tivesse partido da estação sem ti. Talvez nunca tenhas sequer começado, por medo de que te aconteça exatamente isso tudo.
Não estás sozinho e não és idiota, és apenas humano. O cérebro foi desenhado para fugir quando os outros fogem, porque durante milhares de anos foi isso que nos manteve vivos... só que na bolsa, esse instinto sai caríssimo.
Quero que leves daqui uma coisa: perdi 22 612,91 euros antes de perceber isto. Não foi tarde para mim e não é tarde para ti. O que é preciso é trocar a pergunta "o que é que toda a gente está a fazer?" por "quanto vale este negócio e quanto me estão a pedir por ele?"
Mudou alguma coisa no negócio ou mudou apenas o preço? Se mudou o negócio, revejo a minha tese de investimento. Se mudou apenas o preço, a empresa não ficou pior, ficou mais barata.
Ninguém sai da manada sozinho
Há uma parte desta história que raramente conto: não saí da manada apenas por ter aprendido um método. Saí porque passei a estar rodeado de pessoas que pensavam de outra forma.
Numa quinta-feira de queda, sozinho, com o ecrã todo vermelho, é muito fácil acreditar na história que o medo te conta. Quando tens alguém ao lado a perguntar "espera lá, o que é que mudou no negócio?", essa história, muitas vezes, desfaz-se.
Foi para isso que criei a 4OU7. Uma comunidade de investidores particulares que conversam entre pares, sem gurus nem promessas... uma plataforma onde cada um estima o valor intrínseco das empresas que segue, marca os preços a que quer comprar e recebe um alerta quando o mercado lá chega... quase sempre no dia em que a manada está a fugir.
Quando os próximos momentos de pânico chegarem (e vão chegar), quero que estejas do lado de quem compra em saldo e não do lado de quem vende em desespero.
Como vou celebrar
Podia celebrar com um jantar caro ou com uma compra por impulso. Seria uma ironia enorme, voltar a comportar-me como a manada no dia em que celebro ter saído dela, não achas?
Vou fazer outra coisa... vou agradecer ao Adam Khoo, que me mostrou o caminho quando eu andava perdido. Vou agradecer a quem me acompanha na comunidade e que, em cada queda, me ajudou a manter a cabeça fria. Depois vou fechar a aplicação da corretora e cumprir a regra número 7, a regra secreta que está bem enraizada nos membros da comunidade.
O número de hoje vai mudar amanhã. Vai subir, vai descer e vai voltar a assustar-me daqui a uns meses. O que não quero que mude é a forma como reajo a esse número.
"Não celebro os 200 mil euros de valorização, celebro o dia em que deixei de fazer aquilo que toda a gente faz."
Pedro Silva-SantosNão compro porque toda a gente está a comprar nem vendo porque toda a gente está a vender. Quando o preço de uma excelente empresa cai, pergunto se mudou o negócio ou apenas o preço... e se mudou apenas o preço, estou perante saldos, não perante algo que me deva assustar.
Prepara hoje a tua resposta ao próximo momento de pânico
Cria conta gratuita na 4OU7, estima o valor intrínseco das empresas que segues, marca os preços a que queres comprar e recebe um aviso quando o mercado lá chegar, mesmo que seja no dia em que toda a gente está a fugir.
Experimentar grátis → Conta gratuita, sem cartão de crédito.Se depois quiseres tudo: 17€/mês, cancelas quando quiseres.
Nota sobre os números apresentados: o valor corresponde ao total de lucros e perdas do meu portefólio indicado pela corretora à data de publicação e resulta de vários anos de investimento, com anos positivos e anos negativos. Rentabilidades passadas não garantem rentabilidades futuras. Este texto é a partilha da minha experiência pessoal, não menciona nenhuma empresa em particular e não constitui aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento.



