Quanto custa a tua liberdade?
Fiz as contas...
e é menos do que pensas!
Há um número que decide se consegues dizer "não" a um emprego de que não gostas, a uma cidade onde já não queres viver ou ao medo de começar um negócio teu. Quase ninguém o calculou... e quem o calcula fica surpreendido com o quão pequeno é.
É domingo à noite, amanhã é segunda-feira e já sentes aquele aperto no estômago.
Passaste o fim de semana a pensar que podias sair do emprego, mudar de cidade ou finalmente avançar com aquela ideia que tens guardada há anos. Depois olhas para a conta bancária e a conclusão é sempre a mesma: "não posso".
Na maioria dos casos, esta frase não está bem certa. O verdadeiro problema é outro, muito mais fácil de resolver do que parece.
Não estás preso ao emprego
Estás preso porque não tens dinheiro de lado para aguentar alguns meses sem salário.
Parece a mesma coisa, mas há grandes diferenças. "Estou preso ao emprego" soa a castigo para a vida toda, a algo que depende do teu chefe, da economia ou da sorte. "Não tenho dinheiro para aguentar seis meses" é apenas um número... e um número consegue-se atingir.
Pensa nas pessoas que conheces que mudaram de vida: quem se despediu para abrir um negócio, quem trocou a cidade grande pelo interior, quem recusou uma promoção que só lhe ia trazer stress. Quase nunca o fizeram apenas por coragem. Na maioria dos casos, tinham uma reserva de dinheiro que lhes dava tempo para encontrar novos caminhos.
"É muito mais fácil ter coragem para mudar de vida quando tens seis meses de despesas guardados no banco."
Pedro Silva-SantosNos livros de finanças pessoais, este "dinheiro de lado" chama-se fundo de emergência. Não gosto muito do nome, porque nos faz pensar logo em desgraças, como o carro que avaria ou a máquina de lavar que deixa de funcionar.
Prefiro chamar-lhe o teu Número da Liberdade.
A conta é simples
O teu Número da Liberdade é o dinheiro de que precisas para viver durante alguns meses sem receber um salário. A conta faz-se assim:
Despesas essenciais por mês × meses de liberdade que queres ter
Atenção à palavra "essenciais". Não estamos a falar do teu salário, nem de tudo o que gastas num mês normal com jantares fora e compras por impulso. Estamos a falar da renda ou da prestação da casa, da eletricidade, da água, da internet, do supermercado, dos transportes e dos seguros, ou seja, daquilo que terias sempre de pagar mesmo num mês difícil.
Quantos meses deves escolher? Depende daquilo que queres fazer com essa liberdade. Com três meses, tens margem para respirar se perderes o emprego de repente. Com seis meses, podes procurar outro trabalho com calma, sem aceitar a primeira proposta que aparecer. Com doze meses, já tens espaço para tentar criar o teu próprio emprego, sabendo que os primeiros tempos raramente dão para pagar as contas.
Vamos a um exemplo. Imagina uma pessoa que gasta 1 100€ por mês em despesas essenciais e quer ter seis meses de liberdade:
São 6 600€. É este o preço de poder dizer "não".
Não são cem mil euros, nem é preciso esperar até seres rico ou até daqui a vinte anos. É um valor concreto, que consegues atingir em relativamente pouco tempo.
Porque é que é menos do que pensas?
Quando pergunto a alguém quanto dinheiro precisaria para se sentir livre, as respostas costumam ser dezenas ou centenas de milhares de euros. As pessoas pensam em salários de um ano inteiro ou na reforma... e desistem antes de começar, porque o valor parece impossível.
Com os 6 600€ do exemplo anterior, as contas ficam muito diferentes:
Quase ninguém repara na terceira linha, que é a mais importante de todas.
Cada 100€ que cortas nas despesas essenciais ajudam-te duas vezes. Por um lado, baixam o valor que precisas de juntar (com despesas de 1 000€ por mês, seis meses passam a custar 6 000€). Por outro lado, aumentam o dinheiro que consegues guardar todos os meses. Resultado: passas de 27 para 18 meses... só com uma decisão.
Gastar menos não te torna apenas mais poupado, torna-te mais livre, porque cada mês de liberdade fica mais barato.
Agora é a tua vez. Coloca os teus números na calculadora e descobre quanto custa a tua liberdade:
Se guardar 250€ por mês, a minha liberdade fica paga lá para dezembro de 2028.
Conta simplificada, sem juros nem inflação, para montantes de dinheiro que devem estar sempre disponíveis. Exemplo ilustrativo, não é recomendação de investimento.
Se o resultado te assustou, lembra-te de que a maioria das pessoas nunca fez esta conta. Só por a teres feito, já estás à frente de quem continua a dizer "não posso" sem saber porquê.
Onde guardar este dinheiro (e onde não guardar)
Aqui vou ser muito honesto contigo, mesmo que seja o contrário do que esperavas ler num blog sobre investimentos em empresas cotadas na bolsa.
O teu Número da Liberdade não deve ser investido em ações.
Invisto em ações há vários anos e continuo a acreditar que são uma das melhores formas de fazer crescer o dinheiro a longo prazo. O problema está exatamente no "longo prazo". Este dinheiro serve para o dia em que precisares dele, que pode ser precisamente num dia em que a bolsa está a cair a pique.
Em 2022, o Nasdaq 100 caiu cerca de 33%. Imagina que precisavas do dinheiro nesse ano e que, por teres de vender as ações na pior altura, os teus seis meses de liberdade passavam a valer apenas quatro. A tua liberdade não pode depender do humor dos mercados acionistas.
O melhor sítio para guardar o teu Número da Liberdade é uma conta separada daquela que usas no dia a dia, de onde possas tirar o dinheiro a qualquer momento: uma conta poupança ou um depósito que possas levantar sem grandes penalizações. Não vai render muito... nem precisa. A função deste dinheiro não é crescer, é estar disponível quando precisares dele.
Manter este dinheiro fora da conta do dia a dia é o mais importante de tudo. Quando o dinheiro está à vista, acabas sempre por encontrar uma boa desculpa para o gastar.
Depois da liberdade, põe o dinheiro a trabalhar
Quando completares o teu Número da Liberdade, os 150€ ou 250€ que guardavas todos os meses ficam livres.
Nessa altura, já tens o hábito de poupar e já sabes viver sem esse dinheiro. É aqui que começa a segunda fase: investir, para que o dinheiro passe a trabalhar para ti.
As duas fases têm objetivos diferentes. A primeira dá-te liberdade para mudares de vida nos próximos meses ou anos. A segunda pode dar-te, um dia, a liberdade de trabalhares apenas porque queres e não porque precisas.
Num artigo anterior, fiz as contas a 100€ por mês durante 40 anos: numa simulação com uma rentabilidade de 10% ao ano, chegavas a quase 638 000€. Não é uma promessa, porque ninguém sabe o que a bolsa vai fazer. É apenas uma forma de mostrar o que o tempo consegue fazer a quem começa cedo e não desiste.
A ordem é muito importante: primeiro a reserva, depois a bolsa. Quem salta a primeira fase acaba muitas vezes por vender ações a perder logo ao primeiro imprevisto... e fica sem liberdade e sem investimento!
O primeiro passo, ainda esta semana
Não precisas de um plano perfeito, precisas de um primeiro passo tão pequeno que não tenhas desculpa para o adiar.
Mesmo 50€ por mês já fazem diferença, porque o mais importante não é o valor, é começares agora e não "quando as coisas acalmarem"... as coisas nunca vão acalmar!
Envia isto a quem precisa de o ler
Aposto que, enquanto lias este artigo, te lembraste de alguém.
Aquele amigo que se queixa do trabalho há três anos e diz sempre que "um dia destes" se vai embora. A prima que quer mudar de cidade e não sabe por onde começar. O colega que, em todos os jantares de Natal, fala do negócio que vai abrir. Ou talvez te tenhas lembrado de ti mesmo...
Envia-lhes este artigo, não como um sermão, mas como um desafio: "fiz a conta, faz também e depois comparamos". Mudar de vida sozinho é difícil, com alguém ao lado é bem mais fácil.
É também para isso que serve a comunidade 4OU7: um sítio onde podes falar do teu objetivo com outros investidores particulares, alguns deles já com a reserva de emergência criada. Ninguém dá conselhos de investimento a ninguém, é uma conversa entre pares, mas ter companhia focada no mesmo caminho ajuda muito a não desistir.
"A liberdade não se compra de uma vez, compra-se um mês de cada vez... e o primeiro mês é o mais difícil, porque é o único que te obriga a começar."
Pedro Silva-SantosNão estou preso ao meu emprego, só me faltam alguns meses de liberdade... e começo a juntá-los já hoje.
Depois da reserva, põe o resto a trabalhar
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Nota: os valores apresentados são exemplos simplificados, sem juros, impostos nem inflação. A simulação dos 100€ por mês é um cenário hipotético e não garante qualquer rentabilidade. Este texto é a partilha da minha experiência pessoal e um exercício de literacia financeira. Não é aconselhamento financeiro nem recomendação de investimento.



