Preço vs Valor.
A distinção que separa
quem ganha de quem perde.
Ter 500 ações de $1 parece excelente, até perceberes que cada uma vale $0,10. Preço é o que pagas, valor é o benefício que recebes. Esta frase do Warren Buffett é o conceito mais importante em investimentos e o mais ignorado por quem começa a investir.
Há uma frase que uso com toda a gente que está a começar a investir, porque sei que se for verdadeiramente interiorizada, vai poupar muito dinheiro ao longo dos anos:
Parece simples... efetivamente é simples... e mesmo assim é o erro que mais vejo não só em iniciantes, mas também em investidores com anos de experiência... e é um erro que eu próprio cometi várias vezes antes de perceber realmente o que a famosa frase significava.
Nos meus primeiros anos como investidor, comprei ações só porque o preço parecia baixo, sem perceber nada sobre o valor real da empresa por trás desse preço. O resultado, como deves imaginar, foi catastrófico... perdi a maior parte desse dinheiro. O erro que cometi é exatamente o que vou explicar a seguir, para que o consigas identificar sem teres de o sentir na pele, como eu senti.
O erro dos $500
Imagina que encontras estas duas empresas cotadas na bolsa:
500 ações a $1 cada
Uma empresa especulativa, sem crescimento, sem lucros, sem MOAT. Cada ação custa apenas $1. Parece barata, mas o valor real de cada ação, estimado pelos fundamentos da empresa, é de $0,10.
5 ações a $100 cada
Uma empresa excelente, com crescimento consistente, MOAT sólido e endividamento controlado. Cada ação custa $100, parece cara, mas o valor real estimado é de $200 por ação.
A ação de $1 é cara. A ação de $100 é barata. Não pelo preço, mas pela relação entre o preço e o respetivo valor.
Esta distinção parece óbvia quando está explicada desta forma, mas quando estás a olhar para um ecrã cheio de cotações e vês uma empresa com as ações a $0,50 e outra a $350, o instinto diz-te que a de $0,50 é mais acessível... e é exatamente aí que o erro acontece.
A padaria que explica tudo
Imagina uma padaria na tua rua. Produz 200 pãezinhos por dia, tem clientes fiéis há 20 anos, gera lucros de 50 000€ por ano e o proprietário quer vendê-la por 100 000€.
Agora imagina outra padaria ao lado. Produz 10 pãezinhos por dia, mal cobre as despesas, tem equipamento avariado e o proprietário quer vendê-la por 5 000€.
Qual das duas está mais barata? Qual tem mais valor?
A primeira, apesar de custar 20 vezes mais, está a ser vendida ao equivalente a 2 anos de lucros, é uma oferta extraordinária. A segunda, apesar de custar "apenas" 5 000€, pode não valer nada se o negócio não funcionar.
As ações de empresas cotadas na bolsa funcionam exatamente da mesma forma. O preço por ação não diz nada sobre se a empresa está barata ou cara. O que nos diz se está barata ou cara é a relação entre esse preço das ações e o valor real do negócio que estás a comprar.
O que é o valor intrínseco... e como o estimo
O valor intrínseco é o valor real de uma empresa, independente do preço das suas ações nos mercados acionistas. É o que a empresa "deveria" valer se os mercados fossem perfeitamente racionais, o que raramente são.
Para estimar o valor intrínseco, uso métodos como o DCF (Discounted Cash Flow, fluxo de caixa descontado), que projeta os lucros futuros da empresa e os desconta para o valor atual. Crio sempre três cenários, conservador, base e otimista e trabalho com o mais conservador como referência.
Não é uma ciência exata, é uma estimativa fundamentada e como todas as estimativas, pode estar errada, por isso exijo sempre uma grande margem de segurança: só compro ações de excelentes empresas quando o preço está pelo menos 20% abaixo do valor intrínseco estimado... idealmente 30% a 40% abaixo!
A margem de segurança, o amortecedor que me protege quando estou errado
Atenção... quero que percebas que a margem de segurança que exijo não é pura ganância, é prudência. Quando compro com 40% de desconto face ao valor intrínseco estimado, estou a proteger-me contra dois riscos: o risco de a minha estimativa estar baseada em pressupostos errados e o risco de os preços continuarem a cair antes de subirem.
"Porque é que vou comprar um bilhete da lotaria quando posso casar com aquela beldade que já ganhou a lotaria?"
Pedro Silva-Santos, inspirado no mentor Adam KhooPreço alto ≠ empresa cara. Preço baixo ≠ empresa barata.
A Berkshire Hathaway, a empresa de nosso "avô" Warren Buffett, vale centenas de milhares de dólares por ação. É cara? Depende. Se o valor intrínseco por ação for ainda mais elevado, não é cara. Pode ser uma beldade a preço de oportunidade.
Uma ação de uma empresa falida que custa $0,001 parece irresistível. É barata? Depende. Se a empresa não tem fundamentos e o valor intrínseco é zero, não é barata, é uma armadilha com preço baixo.
Lembra-te: a pergunta que importa colocar nunca é "quanto custa?", é sempre "quanto vale?"
Não interessa o número de ações que tens nem o preço por ação. Interessa perceber o valor da empresa na qual estás a investir, a sua capacidade para fazer crescer os negócios e a percentagem de desconto que consegues no momento em que compras ações, porque é isso que te dará margem de segurança.
Em tudo na vida, é importante perceber a distinção entre preço e valor. Preço é o que pago, valor é o benefício que recebo.
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