O melhor ano da minha carteira
foi aquele em que
perdi 9,41%.

Um leitor perguntou-me se bati o índice S&P 500 e o Nasdaq nos últimos cinco anos. A resposta está nos números... a explicação está noutro sítio.

A pergunta apareceu num comentário no Facebook, sem rodeios: "a tua carteira bateu o S&P 500 e o Nasdaq 100 nos últimos cinco anos?"

Gosto destas perguntas... são incómodas, obrigam a ir buscar a folha em vez da opinião e não deixam espaço para conversa bonita.

Fui buscar a folha...

Os números, primeiro

Entre 2021 e 2025, cinco anos completos, a minha carteira valorizou cerca de 130%. No mesmo período o S&P 500 fez perto de 96% e o Nasdaq 100 perto de 102%, já com dividendos incluídos.

18,1%
ao ano, a minha carteira
14,4%
ao ano, o S&P 500
15,1%
ao ano, o Nasdaq 100

Antes que alguém pegue nisto para me pôr num pedestal, deixa-me estragar já a festa com três avisos.

O primeiro: os índices estão em dólares e os meus números em euros. Ajustado ao câmbio, a diferença encolhe. Continuo à frente, mas com menos folga do que parece à primeira vista.

O segundo: cinco anos é pouco tempo. Há gestores brilhantes que passam cinco anos atrás do índice e há sortudos que passam cinco anos à frente. Só o tempo separa cada um deles.

O terceiro: houve e haverá anos em que fico atrás do mercado. Isso não é uma hipótese remota, é uma certeza estatística de quem escolhe empresas uma a uma.

Não é preciso ir buscar exemplos ao passado para provar este último ponto. Neste momento, em meados de agosto de 2026, a minha carteira de investimentos está com cerca de 7,8% de valorização, ligeiramente abaixo dos índices. Fico atrás dos índices e continuo a dormir bem, porque não tenho nenhum compromisso de bater o mercado todos os anos, tenho um método para aplicar ao longo de décadas.

A diferença não se fez nos anos bons

Se olhares para os anos de euforia, não vais encontrar ali a explicação. Em 2023 e 2024 os mercados acionistas correram bem e os meus investimentos também... até aqui, nada de extraordinário.

A diferença fez-se toda num ano só. O ano feio...

2022, o ano do medo

S&P 500: menos 18%.
Nasdaq 100: menos 33%.
A minha carteira: menos 9,41%.

Foi esse ano que fez brilhar ainda mais os outros cinco. Perder 9% quando o mundo à tua volta perde 33% não é sorte, é o resultado de decisões tomadas muito antes de o mercado começar a cair... e de reforços seletivos quando o pânico se instalou!

"Não ganhei loucamente nos anos em que toda a gente estava eufórica. Perdi menos no ano em que quase toda a gente desistiu."

Pedro Silva-Santos

O que fiz em 2022

Vou dizer-te exatamente o que fiz durante aquele ano.

Praticamente nada.

Comprei mais ações das empresas que já conhecia e que tinham ficado absurdamente baratas. De resto, fiquei quieto.

Parece pouco? Fica quieto durante doze meses a ver a tua carteira a "sangrar" e depois vem dizer-me se continuas a achar que é pouco.

Não fazer nada é a decisão mais cara e mais difícil que existe para quem investe em empresas cotadas na Bolsa. Custa porque todo o teu corpo te pede o contrário... não fazer nada parece irresponsável, parece que estás em negação, a ignorar o problema.

Na verdade é ao contrário... na maioria dos casos o problema és tu, porque tens a mania de estar sempre a mexer em alguma coisa.

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A estratégia acontece antes, nunca durante

Aqui está a parte que quase ninguém quer ouvir, porque é aborrecida.

As decisões que salvaram a minha carteira de investimentos em 2022 não foram tomadas em 2022. Foram tomadas antes, com o mercado calmo e a cabeça fria.

Que empresas quero ter, quanto vale cada uma para mim, q que preço estou disposto a comprar mais, que peso máximo aceito em cada posição, que dinheiro tenho de lado para quando o desconto aparecer?

Tudo isto é trabalho para fazermos nos tempos bons. Quando a tempestade chega, já não há tempo para pensar, só há tempo para executar aquilo que decidiste antes... ou para estragares tudo.

O teste dos três segundos

Se o preço de uma empresa na qual investes cair 30% amanhã à tarde e tu não souberes se isso é uma tragédia ou um preço de saldo, então o problema não é a queda, o problema é que nunca chegaste a decidir quanto é que aquela empresa vale para ti.

O estômago decide mais do que o cérebro

Em 2022 havia empresas extraordinárias a negociar a preços de saldo. O cérebro sabia disso e qualquer pessoa com uma folha de cálculo (e uma tarde livre) chegava à mesma conclusão.

O cérebro nunca foi o problema. A informação estava lá, à vista de todos, de graça.

O que faltou à maioria dos investidores foi estômago para agir em conformidade com aquilo que o cérebro já sabia.

Investir bem não é um teste de inteligência, é um teste de temperamento disfarçado de teste de inteligência. Conheço pessoas muito mais inteligentes do que eu que perderam dinheiro em 2022 porque venderam em pânico aquilo que tinham comprado com grande convicção.

Warren Buffett resumiu isto melhor do que eu alguma vez conseguirei: não é preciso ser um génio, é preciso ter um temperamento capaz de controlar os impulsos que metem os outros em problemas.

Sentir medo é normal, agir sobre ele é que não

Deixa-me desfazer um mito.

Não existe nenhum investidor calmo, existem investidores com um plano. Também senti aperto no peito em 2022, também abri a aplicação da corretora demasiadas vezes por dia, também tive tardes em que fiz contas de cabeça em vez de estar a trabalhar nos meus projetos...

A diferença nunca está no que sentes, está no que fazes com o que sentes.

O medo é apenas informação sobre o teu estado emocional. Não é informação sobre a qualidade das empresas que tens em carteira. Confundir as duas coisas é o erro mais caro que um investidor pode cometer... e normalmente comete-o sempre no pior momento possível.

Por isso é que eu optei por escrever as regras antes. Quando o preço cai, a única pergunta que coloco é esta: mudou alguma coisa no negócio ou mudou apenas o preço das ações?

Se mudou o negócio, revejo a minha tese de investimento. Se mudou apenas o preço a empresa não ficou pior, ficou mais barata.

Ninguém aguenta isto sozinho

Aqui chegamos à parte de que menos se fala e que talvez seja a mais importante de todas.

Toda a gente consegue ser racional quando está a ler um livro sobre investimento em valor num domingo à tarde. Poucos conseguem ser racionais numa terça-feira de queda, sozinhos, com o telemóvel na mão e o vermelho a encher o ecrã.

O isolamento é o melhor amigo do pânico. Quando estás sozinho, o teu cérebro inventa uma história e acaba por acreditar nela.

É por isso que a comunidade existe e é por isso que construímos a plataforma 4OU7 desta maneira.

Alguém pergunta se os fundamentos de uma empresa mudaram... e três pessoas vão ao relatório em vez de irem ao gráfico.
Alguém admite que está em pânico... e percebe que não é o único, o que já retira metade do peso.
Alguém partilha o valor intrínseco que calculou, com os suportes definidos e o alerta ativo, semanas antes da queda acontecer.
Alguém mais velho na família lembra que já viu este filme em 2008, em 2020 e em 2022.

Não é acompanhamento emocional, é gestão de risco a sério. Uma comunidade que te obriga a justificar a tua decisão em voz alta é a coisa mais próxima de um travão automático que vais encontrar.

Ter o valor intrínseco estimado de cada empresa escrito numa tabela, com os níveis de suporte marcados e o alerta ligado, muda tudo. Quando a queda chega, não estás a decidir, estás a executar uma decisão que o teu eu do passado, mais calmo e mais lúcido, já tinha tomado por ti.

A pergunta que interessa

Voltando ao comentário do início: sim, nestes cinco anos fiquei à frente dos dois índices que referes.

Isso não é uma garantia para os próximos cinco. Rentabilidades passadas não garantem rentabilidades futuras e quem te disser o contrário é um aldrabão!

Há algo muito mais útil do que uma percentagem...

A tua rentabilidade nos próximos dez anos não vai ser decidida pela empresa brilhante que descobrires este mês, vai ser decidida pelo que fizeres na próxima segunda-feira em que o mercado abrir a cair 6% e toda a gente estiver a gritar que desta vez é diferente.

"A pergunta não é se sabes escolher boas empresas, é se aguentas ficar com elas em carteira quando o mundo diz que estás errado."

Pedro Silva-Santos
Repete comigo

As decisões que me protegem nas quedas são tomadas com o mercado calmo, nunca durante a tempestade. Quando o preço cai, pergunto se mudou o negócio ou se apenas mudou o preço... e se mudou apenas o preço, a empresa não ficou pior, ficou mais barata.

Escreve as tuas regras antes da próxima queda

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Nota sobre os números apresentados: retornos da carteira calculados em euros, ano a ano, entre 2021 e 2025, com o valor de 2026 referente ao ano em curso e ainda por fechar. Índices em dólares, com dividendos reinvestidos. Este texto é a partilha da minha experiência pessoal e não constitui qualquer tipo de recomendação de investimento.

Não sejas egoísta... partilha!

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