O IRS que ninguém
te explica quando investes
na Bolsa.

Mais-valias, dividendos, menos-valias que abatam futuros lucros, IRS a pagar em prestações. Há uma dimensão fiscal do investimento que assusta muita gente antes de começar, e que afinal é muito mais simples do que parece.

Uma das razões menos faladas para tantos portugueses nunca começarem a investir é o medo do fisco. "E depois tenho de declarar tudo no IRS… e se errar… e os impostos são muitos…"

É um medo compreensível, e é alimentado pela falta de informação clara e acessível sobre como funciona a tributação de investimentos em Portugal. Vou tentar resolver isso aqui.

Aviso importante antes de continuar: não sou contabilista nem advogado fiscal. O que partilho é a minha experiência pessoal e entendimento geral do sistema. Para situações específicas, consulta sempre um profissional. A legislação também pode mudar, por isso verifica sempre as regras atuais.

Os conceitos que precisas de conhecer

Mais-valias
O lucro que obténs quando vendes ações por um preço superior ao que pagaste. É sobre este lucro que pagas imposto, não sobre o valor total de venda.
Menos-valias
O prejuízo quando vendes ações a um preço inferior ao de compra. Em vez de pagares imposto, podes usar estas perdas para abater mais-valias futuras, durante os 5 anos seguintes.
Taxa de tributação
Em Portugal, as mais-valias de ações são tributadas a uma taxa autónoma de 28% (taxa geral aplicável em 2026, verifica sempre a lei em vigor). Podes optar pelo englobamento se a tua taxa efetiva for inferior.
Dividendos
Os dividendos recebidos de empresas cotadas são igualmente tributados. São declarados no Anexo E do IRS, na categoria de rendimentos de capitais.
Englobamento
A opção de juntar os rendimentos de capitais aos restantes rendimentos e aplicar a tabela progressiva do IRS. Só vantajoso se a tua taxa marginal for inferior a 28%.
Ano fiscal
Declaras em 2027 as operações realizadas em 2026. O IRS de mais-valias é sempre declarado no ano seguinte à venda.

Como funciona na prática, um exemplo concreto

Exemplo: vendeste ações com lucro em 2026
Preço de compra (com comissões incluídas)5 000 €
Preço de venda (líquido de comissões)8 200 €
Mais-valia apurada+ 3 200 €
Imposto a pagar (28% sobre 3 200€)– 896 €
Lucro líquido efetivo2 304 €

As comissões pagas à corretora na compra e na venda são dedutíveis ao valor da mais-valia. Por isso é importante guardares os comprovativos de todas as transações, a corretora normalmente fornece um resumo anual, mas convém verificar.

A estratégia das menos-valias que poucos conhecem

Em 2020, quando vendi todas as posições especulativas que tinha, as "galdérias", saí com mais de 22 000 euros de prejuízo. Foi uma decisão difícil, mas correta.

O que muita gente não sabe é que esse prejuízo não desaparece no ar. Podes registá-lo na declaração de IRS e usá-lo para abater as mais-valias que obtiveres nos 5 anos seguintes.

"Vendi todas as galdérias, assumi as perdas e usei essas menos-valias para incluir na declaração de IRS. Essas menos-valias de 2020 iriam 'abatendo' nas mais-valias que tivesse nos 5 anos seguintes."

Pedro Silva-Santos

Na prática: se perdeste 5 000€ em 2024 e ganhaste 3 000€ em 2025, só pagas imposto sobre a diferença, e sobram ainda 2 000€ de menos-valias para usar em 2026, 2027 ou 2028. É uma ferramenta fiscal poderosa que quase ninguém usa corretamente por desconhecimento.

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Pagar o IRS às pinguinhas, a estratégia que uso

Como pago o IRS de mais-valias sem liquidar investimentos

Quando tenho mais-valias significativas a declarar, não sou obrigado a pagar tudo de uma vez. Posso pedir ao portal das Finanças para pagar em prestações, normalmente 6 ou 12 mensalidades.

Fiz isso em 2023 quando vendi um dos meus negócios em 2022. As Finanças debitaram-me uma prestação mensal durante 12 meses, de setembro de 2023 a agosto de 2024. Mantive o dinheiro investido durante todo esse período e paguei o IRS progressivamente.

Pago as mais-valias sem qualquer problema, mas tento pagá-las o mais tarde possível e às pinguinhas. Cada mês que esse dinheiro fica investido é mais um mês de juros compostos a trabalhar.

Os dividendos e o porquê de não me focar neles

Em Portugal, os dividendos recebidos de ações cotadas são tributados. Isso significa que cada vez que uma empresa te paga dividendos, tens de declarar esse rendimento, e pagar imposto sobre ele no ano seguinte.

É uma das razões pelas quais, numa fase de criação de riqueza, prefiro empresas de crescimento que reinvestem os lucros em vez de os distribuir. Quando uma empresa reinveste os lucros e o preço das ações sobe, só pagas imposto quando decides vender. Quando recebe dividendos, pagas todos os anos, independentemente de precisares ou não desse dinheiro.

Para quem já está numa fase em que pretende obter rendimentos dos seus investimentos (como eu poderei estar quando tiver mais de 60 anos), os dividendos fazem sentido. Para quem está a construir, a acumulação é geralmente mais eficiente fiscalmente.

O erro mais comum que vejo

Guardar dinheiro no banco para pagar o IRS de mais-valias futuras, em vez de o manter investido. O IRS só é exigível depois da declaração do ano seguinte, e pode ser pago em prestações. Não precisas de manter liquidez parada por causa do fisco.

Repete comigo

Não vou manter dinheiro parado para poder pagar o IRS quando chegar a altura... e vou usar as menos-valias como ferramenta fiscal e não como dinheiro perdido.

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