Funerárias, o negócio
que ninguém quer...
e que o Peter Lynch
procurava de propósito.
Um membro da comunidade 4OU7 estava a ler o livro «One Up on Wall Street» (do Peter Lynch) e ficou preso num parágrafo sobre um setor que não cresce, é aborrecido e desagrada às pessoas. O autor do livro referia que isso era uma vantagem. Vale a pena perceber porquê, uma vez que é das ideias mais rentáveis que existem em bolsa.
Esta semana, um membro da comunidade 4OU7 partilhou uma fotografia de uma página do livro do Peter Lynch com uma pergunta honesta: não estava a perceber o contexto e o significado daquele parágrafo.
O parágrafo dizia, em resumo, que num setor sem crescimento, aborrecido e que desagrada às pessoas, não há problemas de concorrência... e que isso dá à empresa liberdade para continuar a crescer e a ganhar quota de mercado. O exemplo usado eram os serviços funerários.
Percebo perfeitamente a confusão, uma vez que parece que vai contra tudo o que ouvimos regularmente sobre investimentos.
O Peter Lynch gostava de virar a lógica de Wall Street do avesso
Toda a gente fala de setores em crescimento. Inteligência artificial, energias renováveis, biotecnologia, o que estiver na moda nesse ano. O raciocínio parece óbvio: se o setor cresce, as empresas crescem, quem investir nessas empresas ganha dinheiro.
O Peter Lynch passou a carreira a mostrar que falta uma peça nesse raciocínio... e é a peça mais importante de todas: o crescimento atrai companhia.
Toda a gente quer entrar
O crescimento atrai gente. Aparecem dezenas de concorrentes com dinheiro fresco para investir, as margens de todos começam a derreter e o vencedor de hoje é o esquecido de amanhã. Podes pagar caro por um lugar que ninguém garante que a empresa vai manter.
Ninguém quer entrar
Não há capital novo a entrar todos os meses, não há startups a atacar o negócio, não há guerras de preços movidas por euforia. A empresa que já lá está pode continuar a trabalhar em paz durante décadas, sem alguém a tentar tirar-lhe o lugar.
Repara na inversão: aquilo que a maioria das pessoas vê como o defeito do investimento (o setor não cresce, é aborrecido, ninguém fala dele) é precisamente aquilo que o Peter Lynch dizia que pode constituir proteção.
O caso das funerárias, explicado
A empresa do exemplo referido no livro é a SCI, a Service Corporation International, a maior gestora de serviços funerários dos Estados Unidos. Refiro-a aqui apenas para explicar o raciocínio do livro, nunca como recomendação de compra ou de venda.
O mercado dessa empresa não cresce... e não cresce por uma razão simples de perceber: o número de mortes por ano é o que é. Não há campanha de marketing nem inovação tecnológica que faça esse número subir. Do ponto de vista de quem procura «o próximo grande setor», é o pior negócio do mundo.
Ninguém faz um curso de gestão ou um MBA a sonhar com funerárias. Ninguém sai de uma grande consultora para fundar a startup disruptiva do setor funerário. Nenhum fundo de capital de risco se entusiasma com o tema ao pequeno-almoço.
O crescimento da empresa não vinha do mercado a crescer, vinha do facto de a empresa comer quota de mercado às concorrentes. Havia milhares de funerárias familiares espalhadas pelo país, sem sucessão, sem escala, sem poder de compra. A SCI comprava-as uma por uma, ano após ano, sem ninguém a licitar contra ela.
É esta a ideia. Uma empresa pode crescer durante décadas num mercado que não cresce um único ponto percentual, desde que exista muito espaço fragmentado à sua frente e ninguém com vontade de o disputar.
"Por isso é que o Peter Lynch gostava desse tipo de empresas. Crescem em silêncio, longe dos holofotes e sem ninguém a atirar-lhes dinheiro para cima."
Pedro Silva-Santos, resposta à comunidade 4OU7O desinteresse dos outros também é um MOAT
Quando falamos de MOAT, pensamos quase sempre em marca forte, patentes, efeito de rede ou custos de mudança. Existe uma quinta forma de proteção que raramente é falada e o Peter Lynch percebeu-a melhor do que ninguém: o desinteresse de toda a gente.
Uma empresa protegida pelo aborrecimento do seu próprio setor tem uma vantagem estranha. Não precisa de gastar fortunas a defender-se, porque não há ataques. O tempo, que costuma ser o inimigo das empresas na moda, passa a jogar a favor dela.
Aborrecido não chega. Uma empresa aborrecida, sem liderança, sem geração de caixa, sem crescimento de quota e cheia de dívidas não é uma joia escondida, é apenas uma empresa má num setor mau. O aborrecimento é uma vantagem quando aparece acrescentado a todos os outros critérios, nunca em substituição deles. Que fique bem claro: as empresas que menciono nestes artigos servem apenas para ilustrar ideias e nunca constituem recomendação de investimento. Faz sempre a tua própria análise e decide com a tua própria cabeça.
Foi por isto que aquele parágrafo do livro me pareceu sempre um dos mais importantes que o Peter Lynch escreveu. Ele não estava a dizer «compra coisas aborrecidas», estava a dizer que a ausência de concorrência vale mais do que a presença de entusiasmo... e que o mercado quase nunca cobra nada por essa ausência!
Não procuro o setor de que toda a gente fala, procuro a empresa que ninguém quer copiar. O crescimento que dura não é o que nasce do entusiasmo, é o que nasce de conquistar terreno num sítio onde mais ninguém quer entrar.
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