Quero passar de 4% para 15% ao ano.
Posso copiar os teus investimentos?
Um leitor em pré-reforma descobriu que o dinheiro aplicado no banco lhe rendia pouco mais do que a inflação. Tentou seguir um "guru" e as coisas correram mal. Depois escreveu-me... e aposto que te vais rever em pelo menos uma das linhas do que ele referiu no e-mail.
Há mensagens que respondo em dois minutos... esta não foi uma delas.
Chegou-me há poucos dias, cheia de humor e com uma pergunta lá pelo meio que já me fizeram dezenas de vezes: qual é a tua rentabilidade anual? Posso simplesmente copiar-te?
Li-a duas vezes. À segunda percebi que aquela não era a história de uma pessoa, era a história de milhares de portugueses que confiaram anos a fio no gestor de conta do banco... até ao dia em que resolveram olhar para o extrato com olhos de ver.
Por isso decidi publicá-la aqui, com a resposta que lhe dei. Tirei tudo o que pudesse identificar quem a escreveu... onde vires [...], fui eu que cortei.
O texto do e-mail
Bom dia Pedro
Quem diria que ao fim de (quase) 1 mês venho ao teu contacto (acho que nos podemos tratar por tu 😊).
Gostei muito de ler a tua estória de vida… muito interessante… e muito rica. A minha, financeiramente falando, não tem, de todo, o mesmo interesse… diria que não tem interesse nenhum.
Estou numa situação de pré-reforma. E um dia destes, mais propriamente há um ano, resolvi ver o que os meus investimentos, feitos pelo meu gestor de conta do [...], têm rendido; e não é que tive a grande alegria de constatar que o rendimento médio anual tem sido cerca de 4 a 5%… uma maravilha… por um pouco andavam ao nível da inflação ☹
Então, desde há um ano, comecei a tentar perceber alguma coisa disto… já evoluí, já sei o que é o S&P 500 😊 Fiz algumas formações, mas confesso que, apesar de reformadíssimo, parece que tenho menos tempo de vida para mim. Sim, e isso acontece porque além de ser requisitado frequentemente para tratar dos meus dois netos, tenho uma mulher reformada cá em casa… quando me vê ao computador lá estou eu a levar nas orelhas porque estou sempre agarrado ao conteúdo online… é lá tenho eu que ir às compras para a compensar 😊.
Além disso, mea culpa, dedico todas as manhãs dos dias úteis ao desporto, sou atleta de [...] e vou para o ginásio. Ao fim de semana, uso o sábado de manhã para ir ao mercado de [...] dar e levar música dos feirantes e, ao domingo, como bom católico que sou e menos bom acólito, vou à missa.
Resumindo e baralhando, estou numa fase em que dizer que vou estudar afincadamente no curso de "Investir na Bolsa" ou "Desmistificar os Investimentos" é enganar-me a mim próprio, pois já levo esta experiência deste último ano… e não é por falta de carola, passe a modéstia… Quem consegue ser Mestre em [...] deve ter a capacidade de absorver estas formações.
Acho que estou numa fase de fazer aquilo que não se deve fazer… seguir a onda e não seguir a "minha" onda: ou seja, olhar para o portefólio de um guru dos investimentos e seguir a sua onda. Por isso, a plataforma 4OU7, cuja apresentação já vi duas vezes, uma há um mês e outra agora mesmo, que me pareceu excelente e com uma grande potencialidade, seduziu-me por haver a lista de investimentos do guru Pedro Silva-Santos aberta ao público e eu poder-me inspirar nele e, quem sabe, passar os meus investimentos de rendimento de 4 ou 5% a um rendimento de, pelo menos, 14 ou 15%.
E aí surgiu-me a dúvida. Mas qual será o rendimento dos investimentos do PSS? E será que a plataforma tem uma função que nos permite ver qual é o rendimento dos nossos investimentos desde o primeiro momento até à atualidade?
É que Pedro, neste último ano subscrevi um serviço da concorrência e fui investindo exatamente no mesmo dia o mesmo produto (não investi o que foi investido pela concorrência no passado, por razões evidentes) e tem sido uma desgraça… e não me apetece cair noutra desgraça… para isso, venha o [...] e o meu extraordinário Gestor de Conta que me garante 1 ou 2% acima da inflação.
Ri-me a sério com a parte das orelhas puxadas por estar sempre online e por ir às compras para compensar. Depois parei de rir, porque o resto do e-mail é muito mais sério do que parece.
A minha resposta
Bom dia, [...]!
Claro que nos tratamos por tu 😊 e obrigado pela mensagem... li-a com um sorriso, sobretudo a parte da "requisição" pelos netos e das orelhas puxadas por estares ao computador.
Vou responder às tuas duas perguntas sem rodeios.
Qual é a minha rentabilidade?
Escrevi há pouco tempo um artigo precisamente sobre isso, porque um leitor fez-me uma pergunta parecida. Lê este artigo: O melhor ano da minha carteira foi aquele em que perdi 9,41%.
Em resumo... entre 2021 e 2025 a minha carteira valorizou cerca de 130%, o que dá perto de 18% ao ano. Em 2022, o ano em que o Nasdaq caiu 33%, o meu portefólio desvalorizou 9,41%... e fartei-me de comprar ações de empresas que considerei que estavam em saldo.
Este ano de 2026, até ao dia de hoje, o meu portefólio está com 15,1% de valorização.
Há, no entanto, uma parte que te peço que leves mais a sério do que os números... nada disto é garantia de coisa nenhuma. Houve e vai haver anos em que fico atrás do mercado. Em agosto, quando escrevi o artigo que partilhei mais acima, estava ligeiramente abaixo dos índices. Quem te prometer 14 ou 15% ao ano está a vender-te uma coisa que ninguém consegue garantir com 100% de certeza.
Sobre seguires o portefólio de um "guru"...
Acho que a tua experiência deste último ano já te deu a resposta. Copiar no mesmo dia, o mesmo produto, sem perceber porquê, deixa-te sem chão no primeiro momento em que a empresa cai 20%. Não sabes se é uma tragédia ou se voltaram os saldos... e é possível que acabes por vender as ações no pior momento possível.
Também já escrevi sobre isso no blog... se tiveres curiosidade, lê o artigo neste link: Copiaste a minha carteira em cinco minutos, não copiaste os oito anos que me custou construí-la.
A minha lista de beldades está visível na plataforma 4OU7, sim, é verdade. Só que o verdadeiro valor não está em copiares essa lista cegamente... está em perceberes porque é que cada empresa lá está, quanto acho que vale e a que preço estaria disposto a comprar mais, mas depois disso tens de perceber se a empresa faz sentido no teu portefólio, se estarás confortável em ver os preços a cair a pique sem stressares ou dormires mal com isso, etc...
Porque é que a comunidade faz diferença
Percebo bem a questão do tempo. Não precisas de estudar afincadamente para tirar proveito disto.
Na comunidade tens partilhas diárias e na 4OU7 tens resumos em áudio (diários e semanais) que podes ouvir no caminho para o [...] ou para o ginásio. Tens os cartões das empresas feitos por outros membros, com o valor intrínseco estimado e respetivos níveis de suporte dados pelas médias móveis. Quando tens uma dúvida, mesmo que te pareça existencial, perguntas... e normalmente alguém já foi ao relatório antes de ti e por isso conseguirá responder-te.
Investir sozinho é duro, sobretudo nos dias de queda. Com uma família de investidores à tua volta, que te obriga a justificar as decisões e te lembra que já viu este filme antes, fica tudo muito mais leve.
Grande abraço e espero ver-te em breve na "família".
Três armadilhas num único e-mail
Respondi-lhe ao e-mail e segui com o meu dia. Só que este e-mail não me saiu da cabeça...
Há ali três armadilhas em que quase toda a gente cai, mais cedo ou mais tarde. Também já caí numa delas, fiz parte da manada durante uns anos e paguei caro por isso.
Armadilha 1: os 4% que parecem bons
Quatro ou cinco por cento de rentabilidade anual até soa bem. Não perdeste dinheiro, o número é positivo e o extrato está verde... parece que está tudo bem.
O problema está numa palavra que ele próprio escreveu: inflação.
Se o teu dinheiro rende 4% e os preços sobem 3%, ficaste apenas 1% mais rico. Dez anos depois tens mais euros na conta, só que com esses euros praticamente não consegues comprar mais coisas do que compravas no primeiro dia.
Agora repara no final do e-mail... o gestor de conta garante "1 ou 2% acima da inflação". Foi exatamente isso que ele entregou!
"O banco não falhou a promessa, cumpriu-a ao milímetro. O problema é que a promessa sempre foi pequena... e durante anos ninguém se deu ao trabalho de a ler."
Pedro Silva-SantosAtenção, não estou a dizer que os depósitos, as obrigações ou os produtos conservadores não servem para nada. Servem, sobretudo quando a reforma está perto e a tranquilidade também vale dinheiro.
O que estou a dizer é que tens de saber o que tens, quanto te rende acima da inflação e porque é que o tens na tua carteira de investimentos. Parece-te pouco? Muita gente não sabe responder a nenhuma destas três perguntas.
Armadilha 2: copiar a carteira de investimentos de outra pessoa
Ele fez aquilo que parece a coisa mais lógica do mundo: subscreveu um serviço e comprou o mesmo produto, no mesmo dia, que o "guru" comprou... e as coisas correram mal.
Não me espanta. Copiar a carteira de outra pessoa tem quatro problemas de que ninguém te fala quando te vende o acesso.
É este quarto ponto que faz mais estragos. Quem tu copias tem anos de convicção acumulada sobre cada empresa... tu tens uma notificação no telemóvel a dizer "o guru comprou".
"Quando copias uma carteira de investimentos, estás a pedir emprestada a convicção de outra pessoa. Só que a convicção não se empresta... e é precisamente a convicção que te segura quando o preço das ações cai."
Pedro Silva-SantosArmadilha 3: achar que o problema é a falta de tempo
Foi a parte do e-mail que mais me fez sorrir. Os netos, o desporto todas as manhãs, o mercado ao sábado, a missa ao domingo e uma esposa apaixonada que não o deixa estar sossegado ao computador... tem a vida cheia e ainda bem que assim é.
O raciocínio dele é simples: para investir bem tenho de estudar muito, não tenho tempo para estudar, por isso o melhor é seguir alguém.
Percebo... só que os dois extremos estão errados. Não precisas de te tornar analista financeiro para investir com cabeça, mas também não podes entregar o volante a outra pessoa e fechar os olhos.
Existe um meio-termo de que quase ninguém fala... investir acompanhado.
Ouves um resumo em áudio a caminho do ginásio. Abres o cartão de uma empresa feito por outro membro e vês o valor intrínseco estimado, com os níveis de suporte marcados. Fazes uma pergunta que te parece básica e, muitas vezes, alguém que já leu o relatório de contas responde-te.
Isto não te obriga a passar horas por dia agarrado ao computador (e a esposa agradece). Bastam uns minutos... e boa companhia.
O problema dele nunca foi falta de tempo nem falta de cabeça. Foi ter passado um ano inteiro a investir sozinho, a seguir alguém que nunca conheceu, sem ninguém a quem pudesse perguntar "porquê?"... e ninguém aguenta isso durante muito tempo.
Os números que lhe dei (e o que não lhe prometi)
Sei que estás curioso com os números, por isso aqui ficam, tal e qual como os partilhei com ele.
Nenhum destes números é uma promessa. Houve anos em que fiquei atrás do mercado e vai voltar a acontecer, isso é uma certeza. Em meados de agosto de 2026, quando escrevi o artigo sobre o melhor ano da minha carteira, estava com 7,8% de valorização, ligeiramente abaixo dos índices.
Não mexi em nada em que não devesse mexer... e dois meses depois a fotografia era outra. Podia perfeitamente ter sido ao contrário e eu continuaria a dormir como um anjinho.
Quem te garantir 14 ou 15% de rentabilidade ao ano está a vender-te uma certeza que não existe... é um aldrabão, ponto final. O que te posso mostrar é o caminho que fiz, os erros que cometi e o método que uso. O resultado será sempre teu, para o bem e para o mal.
Se te revês nestas palavras...
Se chegaste até aqui e pensaste "isto podia ter sido escrito por mim", tens vários caminhos à tua frente. Nenhum é obrigatório e nenhum te vai pôr o dinheiro a render 15% ao ano por magia...
O que todos têm em comum é tirarem-te da pior posição possível para quem investe: a solidão.
Escreve-me
Conta-me a tua história, as tuas dúvidas e o que o teu banco te tem rendido. Leio todas as mensagens... e algumas, como esta, acabam por ajudar muita gente.
Usa o contacto de e-mail no fundo desta página.
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O que desejo
Espero que depois da minha resposta ele entre para a "família". Não porque eu lhe vá garantir 15% de rentabilidade ao ano... ninguém lhe pode dar essa garantia.
Espero que entre porque, pela primeira vez em muito tempo, vai deixar de investir sozinho. Vai poder perguntar "porquê?" antes de comprar e "mudou o negócio ou mudou apenas o preço?" antes de vender.
Estas duas perguntas, feitas no momento certo, valem mais do que todas as carteiras de investimento que possas copiar por esse mundo fora.
Copiar sem perceber não é investir... e investir bem não me obriga a passar horas agarrado ao computador, obriga-me a ter um método e boa companhia.
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Nota sobre os números apresentados: retornos da carteira calculados em euros. O valor acumulado refere-se aos cinco anos completos entre 2021 e 2025; o valor de 2026 refere-se ao período entre 1 de janeiro e 3 de outubro de 2026, ano ainda por fechar. A mensagem do leitor foi publicada sem dados que permitam identificar o seu autor. Este texto é a partilha da minha experiência pessoal e não constitui qualquer tipo de recomendação de investimento. Rentabilidades passadas não garantem rentabilidades futuras.



