Está tão barato
que até parece
uma boa oportunidade.
Uma empresa muito conhecida apresentou contas, os preços das suas ações estão nos mínimos dos últimos dez anos e um membro da comunidade 4OU7 quis saber até onde é que os preços ainda poderiam cair. Respondi-lhe com uma piada... só que a pergunta merecia uma resposta a sério.
A pergunta que me fez rir (e depois pensar)
Na noite anterior, uma marca que quase toda a gente conhece tinha apresentado as contas do último trimestre. Pouco depois da meia-noite, já havia quem partilhasse o resumo dos números no chat da nossa comunidade.
Na manhã seguinte, um membro olhou para o gráfico das ações (a cair há meses) e perguntou se não haveria ainda um preço mais abaixo onde a queda finalmente parasse. Aquilo a que se chama, na análise técnica, um novo nível de suporte.
Respondi-lhe com outra pergunta: "... antes de chegar a zero?"
Sei que soa a gozo... e foi. A ideia por trás da piada é muito séria e deverá levar toda a gente a refletir.
A pergunta que ele devia estar a fazer não era onde é que o preço irá parar de cair. A pergunta deveria ser outra, bem mais desconfortável: "quero mesmo comprar ações de uma empresa que ainda não mostrou nenhum sinal de que está a sair do estado de coma?"
A conversa continuou durante a manhã. Ele lembrou que esses preços de referência já tinham sido testados várias vezes, perguntou o que fazem os outros membros quando uma empresa sai da nossa lista de empresas em observação e falou das contratações de gente vinda de empresas de sucesso e das mudanças na administração da empresa.
Tudo perguntas legítimas. Todas com a mesma armadilha escondida...
Bateu as expectativas... de quem?
Antes de discutirmos a armadilha, vale a pena olharmos para os números que tinham saído horas antes, porque contam uma história que os títulos das notícias não contam.
O lucro por ação ficou 9% acima do que os analistas esperavam. É o tipo de número que vira notícia de destaque: "bateu as expectativas". Para quem já anda com vontade de comprar, soa a sinal de viragem.
Só que bastava descer umas linhas no mesmo resumo e vemos...
As receitas ficaram 1% abaixo do esperado e caíram 4% face ao mesmo trimestre do ano passado. O lucro por ação desceu 2% em relação ao ano anterior e 33% em relação ao trimestre anterior.
Traduzindo: a empresa vendeu menos do que há um ano e ganhou menos do que há um ano. Bateu as expectativas porque as expectativas já estavam no fundo do poço.
Bater uma fasquia baixa não é o mesmo que recuperar. É só cair um bocadinho menos do que se temia... e foi com estes números em cima da mesa que surgiu a pergunta sobre até onde o preço ainda poderia descer.
Barato em relação a quê?
Quando dizemos que uma ação está barata, quase sempre a estamos a comparar com o preço que tinha antes. O máximo de há dois anos, o preço a que um amigo comprou, o valor que vimos no ecrã da última vez que fomos espreitar.
Só que o preço de ontem não diz nada sobre o valor de amanhã.
Uma empresa com os preços das ações nos mínimos dos últimos dez anos diz-te apenas uma coisa: que o mercado está hoje disposto a pagar menos por aquele negócio do que pagou durante a última década. Não te diz se o mercado está a exagerar... ou se está simplesmente a fazer as contas melhor do que tu.
Já escrevi sobre isto no artigo Preço vs Valor: o preço é o que pagas, o valor é o que recebes. Uma ação que caiu 70% pode continuar cara, se o negócio por trás tiver encolhido 80%.
"Uma ação não fica barata por ter caído. Fica barata quando o preço cai mais depressa do que o valor do negócio."
Pedro Silva-SantosJá caiu 60%... não pode cair mais, certo?
Há um nome para isto: ancoragem. O cérebro agarra-se ao primeiro número que viu e passa a medir tudo a partir desse número.
Se a ação valia 100 e agora vale 40, o cérebro não vê 40. Vê "menos 60%". Vê um desconto, uma liquidação, uma oportunidade que só os corajosos vão aproveitar.
O mercado não sabe a que preço compraste. Nem quer saber...
A parte mais traiçoeira é a matemática, porque não perdoa quem compra a meio de uma queda durante a qual deveria ter estado quietinho.
Uma ação que já caiu 60% pode perfeitamente cair mais 60%. Quem comprou nos 40 a achar que era uma pechincha vê-a chegar aos 16... e quem comprou nos 100 já perdeu 84% do que investiu.
Para recuperar de uma queda de 60%, o preço da ação precisa de subir 150%. Para recuperar de uma queda de 84%, precisa de subir mais de 500%. Há empresas que conseguem fazê-lo, mas a maioria não consegue!
Já vimos este filme muitas vezes
Não vou dar nomes. Não é preciso... tu conheces estas histórias tão bem como eu.
Em todas estas histórias houve um momento em que o gráfico parecia uma oportunidade de ouro. Houve gente a comprar, a reforçar... e a reforçar outra vez, sempre com a mesma frase na cabeça: "mais barato do que isto não fica."
Afinal ficou.
Para ser justo, também conheço histórias que acabaram bem: empresas que caíram, reinventaram-se e voltaram mais fortes do que alguma vez foram. A diferença entre umas e outras nunca esteve no gráfico, esteve sempre no negócio.
Os "pisos" do gráfico não seguram nada
Voltando à pergunta do início, que é a mais técnica de todas.
Um nível de suporte é, de forma simples, um preço onde no passado as ações deixaram de cair e voltaram a subir. Funciona como uma espécie de piso no gráfico. Os que usamos na comunidade 4OU7 são indicações baseadas nas médias móveis. Ajudam a escolher um preço de entrada mais interessante para empresas que já decidimos que queremos ter na carteira de investimentos. Não obrigam ninguém a comprar... e não seguram o preço de ninguém.
Só que esse piso é uma linha desenhada a partir do passado. Quando os fundamentos de uma empresa se deterioram trimestre após trimestre, o passado deixa de ser uma boa referência. O suporte parte-se, aparece outro mais abaixo... depois outro... e outro... e o zero está cada vez mais próximo!
Cada suporte que é quebrado parece uma nova oportunidade. Na prática, pode ser só mais um aviso.
Se o preço já quebrou vários destes pisos seguidos, o mercado não te está a oferecer descontos sucessivos... está a dizer-te, uma e outra vez, que alguma coisa no negócio mudou para pior.
Histórias de encantar
Quando uma empresa grande entra em dificuldades, o guião é quase sempre o mesmo. Muda-se o presidente executivo, contrata-se gente que vem de empresas com sucesso, anuncia-se um plano estratégico com um nome bonito e metas para daqui a três anos.
Nada disto é mau... pode até ser o início de uma recuperação a sério!
O resumo dos resultados que vimos de manhã é um bom exemplo: as notícias falavam da equipa nova, os números continuavam a encolher. Para mim, enquanto os fundamentos não recuperarem, tudo o que a empresa possa dizer ou fazer são apenas histórias de encantar: promessas, intenções, apresentações com setas a apontar para cima...
O que me faz mudar de ideias não é o discurso da administração, são os resultados: receitas que deixam de encolher, margens que voltam a crescer, dívida que começa a baixar, clientes que regressam. Trimestre após trimestre, não num trimestre isolado.
Prefiro pagar mais caro por uma recuperação que já se vê nos números do que pagar barato por uma recuperação que só existe nas apresentações aos investidores. Vou ganhar menos com a primeira subida, é verdade, mas vou dormir muito melhor!
Quando a empresa sai da lista
O mesmo membro perguntou ainda uma coisa que muita gente tem vergonha de perguntar: quando uma empresa sai da nossa lista de empresas em observação, quem a tem em carteira assume o prejuízo e vende?
Não necessariamente. É uma decisão muito pessoal, que depende do preço a que cada um comprou, do peso que a empresa tem na sua carteira de investimentos e, sobretudo, da confiança que cada um tem na recuperação do negócio.
O que muda é outra coisa: quem decide manter a empresa passa a acompanhá-la sozinho. Valores intrínsecos, níveis de suporte, resultados trimestrais... deixa de haver alguém a fazer esse trabalho contigo.
Na plataforma 4OU7 há uma etiqueta para empresas nesta situação: "Em recuperação". Expliquei o que significa cada etiqueta no artigo Cinco tipos de empresas. Uma empresa em recuperação exige de ti uma coisa acima de todas: paciência para esperar pelas provas antes de pagares por elas.
As perguntas que faço antes de comprar numa queda
Se não consigo responder com segurança à segunda e à terceira pergunta, não compro. O preço pode continuar a cair à vontade... não é problema meu.
Sozinho, qualquer queda parece uma pechincha
Chegamos à parte que mais me interessa neste artigo.
Aquele membro da comunidade fez uma coisa que muita gente não faz: perguntou. Antes de comprar, levou a dúvida para o chat, ouviu outra perspetiva e saiu de lá com mais perguntas do que trazia. No fim, agradeceu e disse que gosta de aprender a olhar para as coisas de outro ângulo.
Sozinho, ninguém lhe teria perguntado se o preço das ações iria deixar de cair antes do zero.
Quando estás sozinho com um gráfico a cair, o cérebro faz o trabalho todo e faz sempre o mesmo: inventa uma história em que tu és o único investidor inteligente que viu o desconto antes dos outros. Não há ninguém para te contrariar, ninguém para te perguntar o que mudou no negócio, ninguém para te lembrar que aquele "barato" já foi "barato" quatro ou cinco vezes seguidas.
Numa comunidade a sério, essa história é posta à prova antes de te custar dinheiro.
Ninguém na comunidade decide por ti. Não damos recomendações financeiras, partilhamos perguntas, contas e experiências. A decisão continua a ser tua... só que deixa de ser tomada às escuras.
As armadilhas dos preços baixos são fáceis de evitar quando alguém te chama a atenção para elas. Sozinho, quase toda a gente cai nessas armadilhas pelo menos uma vez. Eu também já caí, nos primeiros anos como investidor. Custou-me tempo... e bastante dinheiro!
Antes do zero
Voltando à piada do início.
Não sei onde vai parar o preço das ações daquela empresa. Ninguém sabe. Pode recuperar, pode estabilizar, pode continuar a descer durante mais alguns anos. O suporte seguinte pode estar a 10% de distância ou nem sequer existir.
Sei uma coisa: enquanto os fundamentos não mostrarem sinais de vida, não preciso de saber onde está o fundo porque não estou a tentar encontrá-lo!
"Um preço baixo não é a resposta, é só o início da pergunta."
Pedro Silva-SantosBarato não é o mesmo que oportunidade. Antes de comprar, quero perceber o que está a acontecer à empresa.
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Os exemplos descritos neste artigo são genéricos e servem apenas para ilustrar o raciocínio. Os níveis de suporte e os valores intrínsecos são ferramentas de análise, não garantias de preço. Este texto é a partilha da minha experiência pessoal e não constitui qualquer tipo de recomendação de investimento. Não sou consultor financeiro.



